... Te encontro, com
certeza
Talvez
num tempo da delicadeza
Onde
não diremos nada
Nada
aconteceu
Apenas
seguirei, como encantado
Ao
lado teu

FRANCISCO
“CHICO” BUARQUE DE HOLLANDA
Compositor, cantor, poeta e escritor,
uma das mais importantes figuras da música popular brasileira dos anos
60 até os dias de hoje.
No dia 19 de junho de 1944,
nasceu na Maternidade São Sebastião, no Largo do Machado, Rio de
Janeiro, Francisco Buarque de Hollanda, o quarto dos sete filhos do historiador e
sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda e
da pianista amadora Maria Amélia Cesário Alvim. A família
logo muda-se para a rua Haddock
Lobo,
Aos cinco anos, seu interesse
pela música, aparece materializado sob a forma de um álbum de
recortes com fotos de cantores do rádio. Um ano mais tarde, ao partir de
viagem para a Europa, se despediria da avó com um profético bilhete:
"Vovó, você está
muito velha e quando eu voltar eu não vou ver você mais, mas eu
vou ser cantor de rádio e você poderá ligar o rádio
do Céu, se sentir saudades".
Em 1953, Sérgio
Buarque é convidado para dar aulas na Universidade de Roma e a
família muda-se para a Itália. Nessa época, Chico
compõe suas primeiras "marchinhas de carnaval" e torna-se trilingüe, falando inglês na escola
(norte-americana) e italiano nas ruas.
Durante a estada da
família na Itália, costumava ficar "instalado no alto da
escada, quando o mandavam dormir, para não perder a conversa dos
pais" com amigos. A casa, em Roma, era freqüentada por personalidades
da cultura brasileira, entre elas Vinicius de Moraes, de quem, mais tarde, se
tornaria amigo e parceiro.
Na
sua infância morando
A família volta a residir no
Brasil em 1957 e muda-se para um
casarão na rua Buri, a poucos quarteirões do estádio do
Pacaembu. Embora fosse um apaixonado torcedor do Fluminense, a camisa que seu
ídolo vestia era a do Santos. Seu nome: Paulo César de
Araújo, o Pagão, nome que Chico adota até hoje, em
homenagem ao craque, quando veste a camisa número 9 de seu time de
futebol, o Politheama. Alguns amigos brincam,
afirmando que Chico só se tornou músico porque não
conseguiu brilhar no futebol.
Na escola, pelo ano de 1958,
era sempre visto com um livro na mão. Lia os clássicos da
literatura francesa, alemã e russa, e só se interessa pela
literatura brasileira depois que um colega o critica por ler apenas
estrangeiros. É repreendido por desfilar pelo colégio com um raro
exemplar da primeira edição de Macunaíma, de
Mário de Andrade, retirado da estante do pai.
Em 1959, já mostrava
um grande interesse pela música. Chico Buarque aprendeu a tocar
violão de ouvido, tentando imitar os amigos de sua irmã Miúcha e o que ouvia no rádio: Ataulfo Alves,
Noel Rosa, chorinhos, sambas, marchas e semelhantes. Além dos sambas tradicionais,
também ouvia canções estrangeiras. Seu sonho, na
época, "era cantar como João
Gilberto, fazer música como Tom Jobim e letra como Vinícius
de Moraes". É deste ano sua primeira
composição de que ele se lembra, Canção dos
Olhos.
Chegou à vida
universitária em 1963, auge do movimento popular e estudantil que
precedeu o golpe militar de 1964, ingressando na FAU - Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Frustrando o desejo da
avó materna, Maria do Carmo, que sonhava ver o neto desenhando cidades,
Chico abandonaria o curso três anos depois. Um dos ingredientes para a
decisão é o clima de repressão que toma conta das
universidades após o golpe militar de 1964.
Neste ano, apresenta-se pela
primeira vez em um show, no Colégio Santa Cruz. A música Tem
mais samba, feita sob encomenda para o musical Balanço de Orfeu
- e que Chico ainda hoje considera o marco zero de sua carreira.
Suas primeiras
canções, como Pedro
Pedreiro, impregnadas de preocupações sociais, foram seguidas
de composições líricas como Olê, olá, Carolina
e A banda, esta uma das vencedoras do
II Festival de Música Popular Brasileira (São Paulo, 1966),
dividindo com Disparada, de Théo
de Barros e Geraldo Vandré, o primeiro lugar no II Festival de
Música Popular promovido pela Record.
Em 1965, é
lançado seu primeiro compacto com Pedro Pedreiro e Sonho de Um
Carnaval, sua primeira música inscrita em um festival, o da TV
Excelsior. A canção defendida é depois gravada por Geraldo Vandré e não se
classifica. O primeiro lugar vai para Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes,
interpretada por Elis Regina.
No Juão
Sebastião Bar, reduto paulista da bossa nova na época, conhece Gilberto Gil. Nesse mesmo ano, conhece
Caetano Veloso, que se
entusiasmara ao ouvir Chico
cantando Olê, Olá num show estudantil.
Mesmo morando no Rio,
continua mantendo vínculos com São Paulo, onde passa a gravar, ao
lado de Nara Leão, o programa musical Pra Ver a Banda Passar, da TV
Record. Carolina fica em terceiro lugar no II FIC - Festival Internacional
da Canção - promovido pela Rede Globo. Roda Viva
também se classifica em terceiro no III Festival da MPB, promovido pela
TV Record.
Em 1968 vence o Festival
Internacional da Canção, com Sabiá, feita em parceria com
Tom Jobim, com quem compõe, no mesmo ano, Pois É e Retrato Em
Branco e Preto. Em janeiro de 1969 deixa o Brasil e se apresenta na grande
Feira da Indústria Fonográfica, em Cannes, na França.
Parte depois para um auto-exílio na Itália.
Ao decretar-se o ato
institucional nº 5, em dezembro de
Retornando ao Brasil em 1970
e afasta-se do samba tradicional, variando mais a linha das
composições e revelando novas influências como a toada, em
Rosa dos Ventos, o iê-iê-iê
italiano com Cara a Cara, e o protesto político com Apesar de
Você. Em abril de 1975 é vetado integralmente pela censura seu
samba Bolsa de Amores. Rompe com a TV Globo e cancela sua
inscrição, junto com outros convidados, no VI Festival
Internacional da Canção, em sinal de protesto contra o fato de a
emissora criar uma inscrição especial para que os mais famosos
não precisassem passar pelas fases eliminatórias.
Em 1972, compõe quase
todas as músicas do filme Quando O Carnaval Chegar. Voltaria a
fazer músicas para mais dois filmes de Cacá
Diegues: Joanna, a Francesa, em 1973, e Bye Bye, Brasil, de
1979. Em
Ainda em 1972, quando censura
proíbe a capa do disco Chico Canta, com as músicas da
peça Calabar. Para driblar a censura, cria o personagem heterônimo
Julinho da Adelaide. A artimanha
dá certo e as canções Acorda,
Amor, Jorge Maravilha e Milagre Brasileiro passam sem grandes
problemas pela censura.
Julinho da Adelaide concede ao escritor e jornalista Mario Prata
uma longa entrevista para o jornal Última Hora. O público
só tomaria conhecimento da verdade por meio de uma reportagem publicada
em 1975 pelo Jornal do Brasil.
Em 1975, resiste às
tentativas dos que querem transformá-lo em um símbolo da luta
política contra o regime militar. Em 1976, compõe O Que
Será, para o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto. Sai o disco Meus Caros Amigos.
Em 1978, estréia a
peça Ópera do Malandro. No mesmo ano, ganha o Prêmio
Molière como melhor autor teatral pelo seu
trabalho em Gota d´Água
e lança o LP Chico Buarque 1978, e Chapeuzinho Amarelo, o
primeiro livro infantil de sua autoria, ilustrado por Donatella
Berlendis, além do álbum duplo Ópera
do Malandro.
Em 1980, lança o LP Vida,
que traz, entre outras, a música Eu Te Amo, feita especialmente
para o filme homônimo de Arnaldo Jabor.
Lança ainda os discos: Almanaque e Saltimbancos
Trapalhões. Em
1982, em parceria com Edu Lobo,
compõe as canções para o balé O Grande Circo
Místico, que seria lançado em disco no ano seguinte.
Em
1983, compõe o samba Vai Passar, que no ano seguinte se tornaria uma
referência na campanha pelas Diretas Já, da qual participa
ativamente. Lança o disco Chico Buarque 1984. Em 1986 comanda, ao
lado de Caetano Veloso, o
programa de televisão "Chico e Caetano", que permaneceu por
sete meses na programação da Rede Globo.
Em 1987, lança o disco
Francisco e volta aos palcos dirigido por Naum
Alves de Souza. Em 1989, lança o disco Chico Buarque.
Em 1992, lança seu
primeiro romance, Estorvo, publicado pela Companhia das Letras, com o
qual ganha o Prêmio Jabuti de Literatura e vende 7.500 exemplares em
apenas três dias, surpreendendo a Editora Dom
Quixote.
Escreve
o segundo romance, Benjamim, que, lançado em 1995, recebe
críticas desfavoráveis de parte da crítica literária,
não obstante o sucesso de vendas e os elogios de grandes nomes da
literatura.
Em
1997, participa do disco Chico Buarque de Mangueira, com
regravações de clássicos dos compositores da escola e com
duas canções inéditas (Levantados do Chão e
Assentamento) e, em 1998, é o homenageado no desfile em que a
Mangueira sagrou-se campeã do carnaval de 1998.
De Paris, escreve artigos
para os jornais O Estado de S. Paulo e O Globo durante a Copa do Mundo.
O
CD As Cidades (1998), com sete canções inéditas e quatro
regravações, chega às lojas cinco anos depois de Paratodos (1993), entre outros lançamentos, o
último Carioca (2006), que
é o terceiro disco de inéditas, desde que Chico começou a
escrever romances em 1991.
OS PARCEIROS
Ao longo da carreira foi parceiro como
compositor e intérprete de vários dos maiores artistas da
Música Popular Brasileira, como Tom Jobim, Vinícius de Moraes,
Toquinho, (com Vinícius de Morais e Toquinho, Chico
compôs o Samba de Orly, sua
canção do exílio), Milton Nascimento e Caetano
Veloso. Seus parceiros mais constantes são Francis Hime e Edu Lobo.
TEATRO
Compôs a música da
peça Morte e vida severina, de João
Cabral de Melo Neto, e do Romanceiro da
Inconfidência, de Cecília Meireles. Escreveu, com parceiros,
textos e música de Roda Viva (1967),
Calabar (1973), Gota d'água (1975) e Ópera do malandro (1979).
Publicou e encenou textos
infantis e escreveu a novela Fazenda modelo (1974), o romance Estorvo (1991),
Benjamim (1995) e Budapeste (2003).
CHICO BUARQUE
E O “EU” FEMININO
Em muitas canções de Chico Buarque, emerge a fala da
mulher de uma perspectiva, por vezes, espantosamente feminina. Como um fotógrafo das
várias formas e faces da alma feminina e masculina, da anima e do animus, ele vai revelando retratos de cenas interiores, mostrando
nossos sentimentos mais verdadeiros, na perspectiva junguiana diriam que, na
busca pela Individuação.
Vemos, em suas canções, o espelho da mulher que
somos ou que podemos ser. Chico Buarque não teme dar voz, a alma
feminina, expressando em seus versos, os desejos mais profundos de uma mulher.
Destacando
algumas dessas canções:
“Com açúcar e com afeto” - “Olhos nos Olhos”
- “Teresinha” - “Atrás da Porta” - “ Folhetim” - “Iolanda” (versão adaptada de letra original
de Pablo Milanês)
Sobre esste tema, indico a leitura do livro:

Título: Figuras
do Feminino na Canção de Chico Buarque
Autora: Adélia Bezerra de
Meneses
Resumo: Chico Buarque sempre
foi reconhecido como um dos poetas que mais sensivelmente captam o feminino e o
exprimem, traduzindo-o em palavras e música. Em sua Lírica
entranhadamente corporal, emerge o ser e a fala da mulher, de uma perspectiva
por vezes feminina.
É esta a proposta do
livro: um estudo temático das letras que modulam o feminino, e que
utilizará uma abordagem ora sociológica, ora psicanalítica
- inevitavelmente quando se trata de "questões de
gênero".
Apontam-se entre outros
tópicos, a mulher "órfica" e
a mulher prometéica";
a ordem da festa e a ordem do trágico; a ruptura com o discurso habitual
sobre a mulher; e a sobreposição das imagens da mulher e da
cidade, mesclando o afetivo e o social, o sexual e o político. Partindo
da vinculação do tema das mulheres ao da marginalidade social,
chega-se à questão do Desejo – não exclusivamente
feminino, mas do ser humano, macho e fêmea. Com efeito, é
impossível tratar-se da mulher, sem que se desvende também o
homem, sem que o masculino seja convocado: é no contexto de uma intensa
relação afetiva que se flagra o fundamental do feminino. E
é por isso que se acabará deslizando inescapavelmente para o
terreno dos afetos, obrigando-nos a descortinar o poderoso filão da
lírica amorosa do Autor. Os temas da mulher e do amor, que por sinal
entraram juntos na poesia ocidental, são reciprocamente aferidos.
Mas as Figuras do Feminino
que o título deste volume evoca não se restingirão
à alta poesia de Chico Buarque: dirão respeito também a
figurações de que a mulher brasileira se reveste na pintura.
Assim, as reproduções de DiCavalcanti,
Ismael Nery, Vicente do Rêgo Monteiro, Volpi,
entre outros, estabelecerão – pela mera oposição
– um diálogo texto-imagem de grande eficácia. O que de
melhor para ilustrar, por exemplo, a canção Pedaço de Mim
de Chico Buarque do que o quadro intitulado Casal de Ismael Nery, no qual um
homem e uma mulher compõem uma única figura, metades
orgânicas que procuram uma unidade à beira do risco?
Assunto: Música, Poesia
Ateliê Editorial
Páginas: 168
Edição: 3ª
Ano:
2002
Adélia Bezerra de Meneses, doutora pela USP
LETRAS DE MÚSICAS
Todo Sentimento
O que Será (A Flor da Terra)
Até Pensei
A
Mais Bonita
Atrás
da Porta
Abandono
Agora
Falando Sério
Amanhã,
ninguém sabe
Anos
dourados
As
Minhas Meninas
As
Vitrines
Eu
te amo
Cálice
Cantiga
de Acordar
Carolina
Desalento
Desencontro
Folhetim
Futuros
Amantes
O
Meu Amor
Sem
Fantasia
TODO SENTIMENTO
Chico Buarque e C. Bastos
Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu.
Chico Buarque & Milton Nascimento
O que será que me dá que me
bole por dentro
Será que me dá
Que brota a flor da pele será que me dá
E que me sobe as faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo me faz implorar
O que não tem medida nem nunca terá
O que não tem remédio nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente que não devia
Que desacata a gente que é revelia
Que é feito aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos toda alquimia
Que nem todos os santos será que será
O que não tem descanso nem nunca terá
O que não tem cansaço nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro será que me dá
Que me perturba o sono será que me dá
Que todos os ardores me vem atiçar
Que todos os tremores me vem agitar
E todos os suores me vem encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem juízo
ATÉ PENSEI
Chico Buarque
Junto à minha rua
havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia, toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade morava tão vizinha
Que, de tolo, até pensei que fosse minha
Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dona dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu andava pobre, tão pobre de carinho
Que, de tolo, até pensei que fosses minha
Toda a dor da vida me ensinou essa modinha
A MAIS BONITA
Chico Buarque
Não, solidão,
hoje não quero me retocar
Nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas
Deixo que as águas invadam meu rosto
Gosto de me ver chorar
Finjo que estão me vendo
Eu preciso me mostrar
Bonita
Pra que os olhos do meu bem
Não olhem mais ninguém
Quando eu me revelar
Da forma mais bonita
Pra saber como levar todos
Os desejos que ele tem
Ao me ver passar
Bonita
Hoje eu arrasei
Na casa de espelhos
Espalho os meus rostos
E finjo que finjo que finjo
Que não sei
ATRÁS
DA PORTA
Francis Hime/Chico
Buarque
Quando olhaste bem nos olhos
meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teu peito, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
ABANDONO
Edu Lobo/Chico
Buarque
O que será ser
só
Quando outro dia amanhecer
Será recomeçar
Será ser livre sem querer
O que será ser essa moça
E ter vergonha de viver
Ter corpo pra dançar
E não ter onde me esconder
Tentar cobrir meus olhos
Pra minh'alma ninguém ver
Eu toda a minha vida
Soube só lhe pertencer
O que será ser sua sem você
Como será nua em noite de luar
Ser aluada, louca
Até você voltar
Pra que
O que será ser só
Quando outro dia amanhecer
Será recomeçar
Será ser livre sem querer
Quem vai secar meu pranto
Eu gosto tanto de você
AGORA FALANDO
SÉRIO
Chico Buarque
Agora falando sério
Eu queria não cantar
A cantiga bonita
Que se acredita
Que o mal espanta
Dou um chute no lirismo
Um pega no cachorro
E um tiro no sabiá
Dou um fora no violino
Faço a mala e corro
Pra não ver a banda passar
Agora falando sério
Eu queria não mentir
Não queria enganar
Driblar, iludir
Tanto desencanto
E você que está me ouvindo
Quer saber o que está havendo
Com as flores do meu quintal?
O amor-perfeito, traindo
A sempre-viva, morrendo
E a rosa, cheirando mal
Agora falando sério
Preferia não falar
Nada que distraísse
O sono difícil
Como acalanto
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar
E chamar polícia e médico
E o síndico do meu tédio
Pedindo pra eu cantar
Agora falando sério
Eu queria não cantar
Falando sério
AMANHÃ,
NINGUÉM SABE
Chico Buarque
Hoje, eu quero
Fazer o meu carnaval
Se o tempo passou, espero
Que ninguém me leve a mal
Mas se o samba quer que eu prossiga
Eu não contrario não
Com o samba eu não compro briga
Do samba eu não abro mão
Amanhã, ninguém sabe
Traga-me um violão
Antes que o amor acabe
Traga-me um violão
Traga-me um violão
Antes que o amor acabe
Hoje, nada
Me cala este violão
Eu faço uma batucada
Eu faço uma evoluçao
Quero ver a tristeza de parte
Quero ver o samba ferver
No corpo da porta-estandarte
Que o meu violão vai trazer
Amanhã ninguém sabe
Traga-me a morena
Antes que o amor acabe
Traga-me uma morena
Traga-me uma morena
Antes que o amor acabe
Hoje, pena
Seria esperar em vão
Eu já tenho uma morena
Eu já tenho um violão
Se o violão insistir, na certa
A morena ainda vem dançar
A roda fica aberta
E a banda vai passar
Amanhã, ninguém sabe
No peito de um cantador
Mais um canto sempre cabe
Eu quero cantar o amor
Eu quero cantar o amor
Antes que o amor acabe
ANOS DOURADOS
Tom Jobim/Chico
Buarque
Parece que dizes
Te amo, Maria
Na fotografia
Estamos felizes
Te ligo afobada
E deixo confissões
No gravador
Vai ser engraçado
Se tens um novo amor
Me vejo a teu lado
Te amo?
Não lembro
Parece dezembro
De um ano dourado
Parece bolero
Te quero, te quero
Dizer que não quero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais
Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
Te ligo ofegante
E digo confusões no gravador
E desconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos, dezembros
Mas quando me lembro
São anos dourados
Ainda te quero
Bolero, nossos versos são banais
Mas como eu espero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais
AS MINHAS
MENINAS
Chico Buarque
Olha as minhas meninas
As minhas meninas
Pra onde é que elas vão
Se já saem sozinhas
As notas da minha canção
Vão as minhas meninas
Levando destinos
Tão iluminados de sim
Passam por mim
E embaraçam as linhas
Da minha mão
As meninas são minhas
Só minhas na minha ilusão
Na canção cristalina
Da mina da imaginação
Pode o tempo
Marcar seus caminhos
Nas faces
Com as linhas
Das noites de não
E a solidão
Maltratar as meninas
As minhas não
As meninas são minhas
Só minhas
As minhas meninas
Do meu coração
AS VITRINES
Chico Buarque
Eu te vejo sumir por
aí
Te avisei que a cidade era um vão
Dá tua mão, olha prá mim
Não faz assim, não vá lá, não
Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão frouxa de rir
Já te vejo brincando gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar
Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão
EU TE AMO
Tom Jobim / Chico Buarque
Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.
CÁLICE
Chico Buarque e Gilberto Gil
(refrão)
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
(refrão)
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
(refrão)
De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
(refrão)
Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguem me esqueça
CANTIGA DE
ACORDAR
Edu Lobo / Chico Buarque
Foi uma ilusão
Uma insensatez
Há que pôr o chão
Nos pés
Era como um trem
Que anda sem passar
Era um tempo sem
Lugar
Mas
Foi um sonho bom
De sonhar porque
Me sonhava com
Você
E então seu canto veio me acordar
Era uma ilusão
No interior
De uma outra ilusão
Maior
Mas
Você foi pro sol
Noite me envolveu
Num silêncio igual
Ao seu
E então seu canto veio me acordar
Tudo é uma ilusão
Os que estão aqui
Esses não estão
Em si
Do universo, o além
Faunos ou mortais
Vão restar mais nem
Sinais
Tudo o que se vê
É o sonho de algum
Pobre sonhador
Todas as estrelas
Todas as misérias
Todos os desejos
E a canção do meu amor
Tudo o que se viu
tudo o que se foi
Última ilusão
Amanhece já
Vai-se abrir o chão
Quiçá
A ilusão se esvai
É uma cena só
E a cortina cai
Sem dó
Vai cessar o som
A sessão já foi
Despertar é bom
Mas dói
Pedras vão rolar
Choram serviçais
Vão se espatifar
Vitrais
Tomba o refletor
Ardem camarins
Cai no bastidor
A atriz
Descarrila o trem
O pilar cedeu
Vai morrer meu bem
E eu
Num jardim fugaz
De espirais sem fim
Eu corria atrás
De mim
O homem se distrai
Dorme em boa fé
Sua sombra sai
A pé
Mas
Foi uma ilusão
Uma insensatez
Há que pôr o chão
Nos pés
CAROLINA
Chico Buarque
Carolina, nos seus olhos
fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei, que não vai dar, seu pranto
não vai nada ajudar
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de
aproveitar
Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo
Mas Carolina não viu...
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já
não existe,
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar
Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina
não viu.
DESALENTO
Chico Buarque - Vinicius de
Moraes
Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim
Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim
Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É pra ela voltar
Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos
DESENCONTRO
Chico Buarque
A sua lembrança me
dói tanto
Eu canto pra ver
Se espanto esse mal
Mas só sei dizer
Um verso banal
Fala em você
Canta você
É sempre igual
Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
E saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis
Não sei se você ainda é a mesma
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esqueceu
FOLHETIM
Chico Buarque
Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim
E, se tiveres renda
Aceito uma prenda
Qualquer coisa assim
Como uma pedra falsa
Um sonho de valsa
Ou um corte de cetim
E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia luz
E te farei, vaidoso, supor
Que é o maior e que me possuis
Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte
Te afasta de mim
Pois já não vales nada
És página virada
Descartada do meu folhetim
FUTUROS
AMANTES
Chico Buarque
Não se afobe,
não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
O MEU AMOR
Chico Buarque
O meu amor tem um jeito
manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes
Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa
Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz
SEM FANTASIA
Chico Buarque
Vem, meu menino vadio, vem,
sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia, que da noite pro dia
Você não vai crescer
Vem, por favor não evites meu amor, meus
convites
Minha dor, meus apelos, vou te envolver nos cabelos,
Vem perde-te em meus braços pelo amor de Deus
Vem que eu te quero fraco, vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero to...do meu
Ah, eu quero te dizer que o instante de te ver custou tanto penar
Não vou me arrepender, só vim te convencer que eu vim pra
não morrer
De tanto te esperar, eu quero te contar das chuvas que apanhei
Das noites que varei no escuro a te buscar
Eu quero te mostrar as marcas que ganhei nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus, e agora que cheguei eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa dos carinhos teus
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Indicação do
livro para consulta de todas as composições:
CHICO BUARQUE – Letra
e Música
Editora Companhia das Letras- 1989-