Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento modernista mineiro.
Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil.
O modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond, Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934), em que o poema-piada e a descontração sintática pareceriam revelar o contrário. A dominante é a individualidade do autor, poeta da ordem e da consolidação, ainda que sempre, e fecundamente, contraditórias. Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico e cético. Mas, enquanto ironiza os costumes e a sociedade, asperamente satírico em seu amargor e desencanto, entrega-se com empenho e requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar.
Vem daí o rigor, que beira a
obsessão. O poeta trabalha sobretudo com o tempo, em sua cintilação cotidiana e
subjetiva, no que destila do corrosivo. Em
Sentimento do mundo (1940),
em José (1942) e
sobretudo em A rosa do povo
(1945), Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da
experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente,
descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida
como um todo. A surpreendente sucessão de obras-primas, nesses livros, indica a
plena maturidade do poeta, mantida sempre.
Várias obras do poeta foram traduzidas para o espanhol, inglês, francês,
italiano, alemão, sueco, tcheco e outras línguas. Drummond foi
seguramente, por muitas décadas, o poeta mais influente da literatura brasileira
em seu tempo, tendo também publicado diversos livros em prosa.
Em mão contrária traduziu os
seguintes autores estrangeiros: Balzac (Les Paysans, 1845; Os camponeses),
Choderlos de Laclos (Les Liaisons dangereuses, 1782; As relações perigosas),
Marcel Proust (La
Fugitive, 1925; A
fugitiva), García Lorca (Doña Rosita, la soltera o el lenguaje de las flores,
1935; Dona Rosita, a solteira), François Mauriac (Thérèse Desqueyroux, 1927; Uma
gota de veneno) e Molière (Les Fourberies de Scapin, 1677; Artimanhas de Scapino).
Alvo de admiração irrestrita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como
escritor, Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia
17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua filha única, a cronista
Maria Julieta Drummond de Andrade.
BIBLIOGRAFIA
POESIA
Alguma poesia. Belo Horizonte: Edições Pindorama, 1930.
Brejo das almas. Belo Horizonte: Os Amigos do Livro, 1934.
Sentimento do mundo. R. de Janeiro: Pongetti, 1940; 10a ed., RJ: Record,
2000.
Poesias (Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José). RJ:
J.Olympio, 1942.
A rosa do povo. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1945.
Poesia até agora. (Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo,
José, A rosa do povo, Novos poemas). Rio de Janeiro: J. Olympio, 1948.
A máquina do mundo (incluído em Claro enigma). Rio de Janeiro: Luís
Martins, 1949 (exemplar único).
Claro enigma. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1951.
A mesa (incluído em Claro enigma). Niterói: Hipocampo, 1951 (70
exemplares).
Viola de bolso. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação do MEC, 1952.
Fazendeiro do ar & Poesia até agora. (Alguma poesia, Brejo das almas,
Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas, Claro enigma,
Fazendeiro do ar). R. de Janeiro: J. Olympio, 1954.
Viola de bolso (incluindo Viola de bolso novamente encordoada); 2ª. ed.
aumentada, Os Cadernos de Cultura, R. de Janeiro: J. Olympio, 1955.
Soneto da buquinagem (incluído em Viola de bolso novamente encordoada).
Rio de Janeiro: Philobiblion, 1955 (100 exemplares).
Ciclo (incluído em A vida passada a limpo e em Poemas). Recife: O Gráfico
Amador, 1957. (96 exemplares).
Poemas (Alguma poesia, Brejo das Almas, Sentimento do mundo, José, A rosa
do povo, Novos poemas, Claro enigma, Fazendeiro do ar, A vida passada a limpo).
R. de Janeiro: J. Olympio, 1959.
Lição de coisas. R. de Janeiro: J. Olympio, 1964.
Obra completa. (Estudo crítico de Emanuel de Moraes, fortuna crítica,
cronologia e bibliografia). R. de Janeiro: Aguilar, 1964 (publicada pela mesma
editora sob o título Poesia completa e prosa (1973), e sob o título de Poesia e
prosa (1979).
Versiprosa. R. de Janeiro: J. Olympio, 1967.
José & Outros (José, Novos poemas, Fazendeiro do ar, A vida passada a
limpo, 4 Poemas, Viola de bolso II). R. de Janeiro: J. Olympio, 1967.
Boitempo & A falta que ama. Rio de Janeiro: Sabiá, 1968.
Nudez (incluído em Poemas). Recife: Escola de Artes, 1979 (50
exemplares).
Reunião (Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José, A
rosa do povo, Novos poemas, Clara enigma, Fazendeiro do ar, A vida passada a
limpo, Lição de coisas, 4 Poemas). R. de Janeiro: J. Olympio, 1969.
D. Quixote (Glosas a 21 desenhos de Cândido Portinari). R. de Janeiro:
Diagraphis, 1972.
As impurezas do branco. R. de Janeiro: J. Olympio, 1973.
Menino antigo (Boitempo II). R. de Janeiro: J. Olympio, 1973.
Minas e Drummond. (ilustrações de Yara Tupinambá, Wilde Lacerda, Haroldo
Mattos, Júlio Espíndola, Jarbas Juarez, Álvaro Apocalypse e Beatriz Coelho).
Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais,1973 (500 exemplares).
Amor, amores (desenhos de Carlos Leão). Rio de Janeiro: Alumbramento,
1975 (423 exemplares).
A visita (incluído em A paixão medida) (fotos de Maureen Bisilliat). São
Paulo: edição particular, 1977 (125 exemplares).
Discurso de primavera e algumas sombras. Rio de Janeiro: J. Olympio,
1977.
O marginal Clorindo Gato (incluído em A paixão medida). R. de Janeiro:
Avenir, 1978.
Nudez (incluído em Poemas). Recife: Escola de artes, 1979 (50
exemplares).
Esquecer para lembrar (Boitempo III). R. de Janeiro: J. Olympio, 1979.
A paixão medida (desenhos de Emeria Marcier). R. de Janeiro:
Alumbramento, 1980. (643 exemplares).
Nova Reunião - 19 livros de poesias. R. de Janeiro: J. Olympio, 1983
O elefante (Ilustrações de Regina Vater). R. de Janeiro: Record. Coleção
Abre-te Sésamo, 1983.
Caso do vestido. R. de Janeiro: Rioarte, 1983 (adaptado para o teatro por
Aderbal Júnior).
Corpo (Ilustrações de Carlos Leão). R. de Janeiro: Record, 1984.
Mata Atlântica (fotos de Luiz Cláudio Marigo, texto de Alceo Magnani). R.
de Janeiro: Chase Banco Lar/AC&M, 1984.
Amor, sinal estranho (litografias originais de Bianco). R. de Janeiro:
Lithos Edições de Arte, 1985 (100 exemplares).
Amar se aprende amando. R. de Janeiro: Record, 1985.
Pantanal (fotos de Luiz Cláudio Marigo, texto de Alceo Magnani). R. de
Janeiro: Chase Banco Lar/AC&M, 1985.
Boitempo I e II (Reunião de poemas publicados anteriormente nos livros
Boitempo, Menino antigo e Esquecer para lembrar). R. de Janeiro: Record, 1986.
O prazer das imagens (fotografias de Hugo Rodrigo Octavio - legendas
inéditas de Carlos Drummond de Andrade). São Paulo: Metal Leve/Hamburg, 1987
(500 exemplares).
Poesia Errante: derrames líricos, e outros nem tanto ou nada. R. de
Janeiro: Record, 1988.
Arte em
Exposição. R. de
Janeiro: Salamandra/Record, 1990.
O Amor Natural. (Ilustrações Milton Dacosta). R. de Janeiro: Record,
1992.
A Vida Passada a Limpo. R. de Janeiro: Record, 1994.
Rio de Janeiro (fotos de Michael Sonnenberg).
Liechtenstein:
Verlag Kunt und Kultur, 1994.
Farewell. R. de Janeiro: Record, 1996.
A Senha do Mundo.
R. de Janeiro: Record, 1996; (reeditado em 1998, pela Record, com o título de
Verso na Prosa, Prosa no Verso).
A Cor de Cada um. R. de Janeiro: Record, 1996; (reeditado em 1998, pela
Record, com o título de Verso na Prosa, Prosa no Verso).
José & Outros. Rio de Janeiro: Record, 2003; (reunião dos livros José,
Novos Poemas e Fazendeiro do ar).
CRÔNICA
Fala, amendoeira. R. de Janeiro: J. Olympio, 1957.
A bolsa & a vida. R. de Janeiro: Editora do Autor, 1962.
Cadeira de balanço. R. de Janeiro: J. Olympio, 1966.
Caminhos de João Brandão. R. de Janeiro: J. Olympio, 1970.
O poder ultrajovem. R. de Janeiro: J. Olympio, 1972.
De notícias & não notícias faz-se a crônica. R. de Janeiro: J. Olympio,
1974.
Os dias lindos. R. de Janeiro: J. Olympio, 1977.
Crônica das favelas cariocas. R. de Janeiro: edição particular, 1981.
Boca de luar. R. de Janeiro: Record, 1984.
Crônicas de 1930/1934 (Crônicas assinadas com os pseudônimos: Antônio
Crispim e Barba Azul). Belo Horizonte: Revista do Arquivo Público Mineiro, 1984.
[Reeditado em 1987 pela Secretaria da Cultura de Minas Gerais - ilustrações de
Ana Raquel.]
Moça deitada na grama. R. de Janeiro: Record, 1987.
Auto-Retrato e Outras Crônicas. Seleção Fernando Py. R. de Janeiro:
Record, 1989.
O Sorvete e Outras Histórias. São Paulo: Ática, 1993.
Vó Caiu na Piscina. R. de Janeiro: Record, 1996.
Quando é dia de futebol. Rio de Janeiro: Record, 2002.
CONTO
O gerente (incluído em Contos de aprendiz). R. de Janeiro: Horizonte,
1945.
Contos de aprendiz. R. de Janeiro: J. Olympio, 1951.
70 historinhas. R. de Janeiro: J. Olympio, 1978. (Seleção de textos dos
livros de crônicas: Fala amendoeira, A bolsa & a vida, Cadeira de balanço,
Caminhos de João Brandão, O poder ultrajovem, De notícias & não notícias faz-se
a crônica e Os dias lindos.)
Contos plausíveis (ilustrações de Irene Peixoto e Márcia Cabral). R. de
Janeiro: J. Olympio/Editora JB, 1981.
O pipoqueiro da esquina (Desenhos de Ziraldo). R. de Janeiro: Codecri,
1981.
História de dois amores (Desenhos de Ziraldo). R. de Janeiro: Record,
1985.
Criança dagora é fogo. R. de Janeiro: Record, 1996.
ENSAIO
Confissões de Minas. R. de Janeiro: Americ-Edit., 1944.
Passeios na ilha. R. de Janeiro: Simões,1952.
Minas Gerais (Antologia). R. de Janeiro: Editora do Autor, 1967. Coleção
Brasil, Terra & Alma.
A Lição do amigo (cartas de Mário de Andrade - introdução e notas de
CDA). R. de Janeiro: J. Olympio, 1982.
Em certa casa da rua Barão de Jaguaribe (ata comemorativa dos 20 anos do
Sabadoyle). R. de Janeiro: Biblioteca Plínio Doyle, 1984.
O observador no escritório (Memória). R. de Janeiro: Record, 1985.
Tempo, vida, poesia (entrevistas à Rádio MEC). R. de Janeiro: Record,
1986.
Saudação a Plínio Doyle. R. de Janeiro: Biblioteca Plínio Doyle, 1986.
O avesso das coisas (Aforismos - ilustrações de ]immy Scott). R. de
Janeiro: Record, 1987.
Dados obtidos e transcritos do site :http://www.releituras.com
Recomendo a leitura do livro:
Dossiê
DrumondEditora Globo
Dossiê Drummond (em sua segunda edição, revista e ampliada), é centrado na última – e rara – grande entrevista de Carlos Drummond de Andrade, concedida ao jornalista Geneton Moraes Neto em 1987, semanas antes de sua morte, e acrescida de vários depoimentos valiosos. A longa, abrangente, penetrante e muitas vezes surpreendente entrevista é, em si, matéria suficiente para fazer deste um volume fundamental na bibliografia sobre o poeta. Mas, além dela e dos muitos depoimentos, esta edição conta, ainda, com a reprodução de um artigo de Paulo Francis à guisa de introdução, com reproduções de fitas gravadas por Drummond, com um posfácio do organizador, com um completo índice onomástico, com um belíssimo projeto gráfico e, finalmente, com as enriquecedoras interpolações de fragmentos de poemas em meio às respostas da entrevista.
POEMAS
Acordar, viver
Poema que acontece
Poema de sete faces
No meio do caminho
As sem-razões do amor
O amor antigo
Consideração do poema
Consolo na praia
Canção amiga
Amar
Parolagem da vida
Amor e seu tempo
O Deus de cada homem
Certas palavras
Antepassado
Igual-desigual
A palavra
A hora do cansaço
Além da Terra, além do Céu
ACORDAR,
VIVER
Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?
Ninguém responde, a vida é pétrea.
POEMA QUE ACONTECEU
Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.
POEMA DE SETE FACES
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de
pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos , raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me
abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
NO MEIO DO CAMINHO
No meio do caminho tinha uma
pedra
tinha uma pedra no mei do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
AS SEM-RAZÕES DO AMOR
Eu te amo porque te
amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
O AMOR ANTIGO
O amor antigo vive de si
mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes
fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo
desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mais pobre de
esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
CONSIDERAÇÃO DO POEMA
Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.
Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua
gravata chamejante.
Me perco em Apollinaire. Adeus,
Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.
Estes poemas são meus. É
minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
– Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca,
nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.
Poeta do finito e da
matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começa-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.
Ele é tão baixo que sequer o
escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.
Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.
Já agora te sigo a toda
parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel... Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.
CONSOLO NA PRAIA
Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
AMAR
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser
amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas
do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor
sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossaamar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
PAROLAGEM DA VIDA
Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
AMOR E SEU TEMPO
Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não
previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do
terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no
limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
O DEUS DE CADA HOMEM
Quando digo “meu Deus”,
afirmo a propriedade.
Há mil deuses pessoais
em nichos da cidade.
Quando digo “meu Deus”,
crio cumplicidade.
Mais fraco, sou mais forte
do que a desirmandade.
Quando digo “meu Deus”,
grito minha orfandade.
O rei que me ofereço
rouba-me a liberdade.
Quando digo “meu Deus”,
choro minha ansiedade.
Não sei que fazer dele
na microeternidade.
CERTAS PALAVRAS
Certas palavras não podem
ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não adivinha nem alcança.
Entretanto são palavras
simples:
definem partes do corpo, movimentos, atos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos.
E tudo é proibido. Então, falamos.
ANTEPASSADO
Só te conheço de retrato,
não te conheço de verdade,
mas teu sangue bole em meu sangue
e sem saber te vivo em mim
e sem saber vou copiando
tuas imprevistas maneiras,
mais do que isso: teu fremente
modo de ser, enclausurado
entre ferros de conveniência
ou aranhóis de burguesia,
vou descobrindo o que me deste
sem saber que o davas, na líquida
transmissão de taras e dons,
vou te compreendendo, somente
de esmerilar em teu retrato
o que a pacatez de um retrato
ou o seu vago negativo,
nele implícito e reticente,
filtra de um homem; sua face
oculta de si mesmo; impulso
primitivo; paixão insone
e mais trevosas intenções
que jamais assumiram ato
nem mesmo sombra de palavra,
mas ficaram dentro de ti
cozinhadas em lenha surda.
Acabei descobrindo tudo
que teus papéis não confessaram
nem a memória de família
transmitiu como fato histórico
e agora te conheço mais
do que a mim próprio me conheço,
pois sou teu vaso e transcendência,
teu duende mal encarnado.
Refaço os gestos que o retrato
não pode ter, aqueles gestos
que ficaram em ti à espera
de tardia repetição,
e tão meus eles se tornaram,
tão aderentes ao meu ser
que suponho tu os copiaste
de mim antes que eu os fizesse,
e furtando-me a iniciativa,
meu ladrão, roubaste-me o espírito.
IGUAL-DESIGUAL
Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho
são iguais.
Todos os filmes norte-americanos
são iguais.
Todos os filmes de todos os países
são iguais.
Todos os best-sellers
são iguais.
Todos os campeonatos nacionais
e internacionais de futebol
são iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todas as experiências de sexo
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas
e rondós são iguais
e todos, todos os poemas em versos livres
são enfadonhamente iguais.
Todas as guerras do mundo
são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas
ou indiferentes, são
iguais.
Contudo, o homem não é igual a
nenhum outro homem, bicho ou
coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho
ímpar.
A PALAVRA
Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.
Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.
A HORA DO CANSAÇO
As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não
acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando
nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho de eterno fica esse
gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.
ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU
Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.